Democracia à espera: como a pandemia faz adiar eleições em todo o mundo

O impacto da Covid-19 é sério no que toca a atos eleitorais. Dos Estados Unidos ao Sri Lanka, passando por uma série de países europeus, as escolhas dos representantes da democracia está a ser suspensa ou adiada.

Não podemos deixar que o coronavírus adie as eleições”. Este é o título de uma coluna de opinião publicada esta sexta-feira pelo jornal “The New York Times”. cuja argumentação arranca com uma premissa clara: “Mesmo em tempo de guerra a América manteve as suas tradições democráticas, não podemos parar agora”.

Com as presidenciais norte-americanas de novembro em pano de fundo, o tema do texto justifica-se pelo anúncio do adiamento das eleições primárias no Conneticut, último estado americano a adiar para 2 de junho a votação inicialmente agendada para 28 de abril. Este adiamento segue-se aos da Luisiana, Geórgia, Wyoming, Kentucky, Ohio, Maryland, Nova Jérsia, Porto Rico, Carolina do Sul e Alabama. Nos estados do Arizona, Florida e Illinois a votação cumpriu-se, porém Rhode Island pode ser o próximo a protelar o escrutínio.

Portugal tem apenas um ato eleitoral previsto para este ano. É a eleição da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, que deve realizar-se no outono e ainda não tem data. Não foi anunciada qualquer intenção de atrasar a ida às urnas no arquipélago.

VÍRUS OBRIGA A ADIAR IDAS ÀS URNAS

O mesmo tem vindo a acontecer por todo o lado. As eleições locais no País de Gales e Inglaterra, agendadas para a primeira semana de maio, foram adiadas por um ano. Em França, ficará por fazer a segunda volta das municipais, que deveria realizar-se em 22 de março.

O Presidente Emmanuel Macron anunciou a suspensão do voto nas 35.000 aglomerações do país depois de a primeira volta, no passado dia 15, ter tido baixa participação. Posteriormente foram adotadas medidas de restrição da circulação que na prática inviabilizam uma votação credível.

De igual modo foram suspendidas por ordem do Governo central e a pedido das administrações autonómicas as eleições na Galiza e no País Basco, na vizinha Espanha, marcadas de início para 5 de abril e agora sem data prevista.

O impacto da pandemia nas eleições agendadas para 2020 em todo o mundo é sério. A atualização dos adiamentos está a ser feita pelo site da International Foundation for Electoral Systems (IFES) com base numa série de fontes, entre elas as agências noticiosas Reuters ou Associated Press, e jornais como “The New York Times”, “O Globo” ou a “France 24”, comissões eleitorais e agências governamentais.

Segundo os dados coligidos até quinta-feira, dia 19, a maior parte dos escrutínios foi adiada ao longo do mês de março, afetando, além dos citados, países como o Sri Lanka e a Sérvia (legislativas), Tunísia, Áustria e Argentina (municipais), Brasil, Colômbia, Paraguai e Peru (locais), Itália e Arménia (referendos), República Checa e Irão (segunda volta das legislativas).

 

 

Cristina Peres, jornalista do Expresso e membro do Clube de Lisboa

Artigo publicado originalmente no Expresso, 20.03.2020

Imagem: A primeira volta das municipais em França já se realizou sob o espectro da pandemia. Foto publicada no mesmo artigo do Expresso. Créditos: BENOIT TESSIER/REUTERS