Da informação à ação vai um longo caminho, mas os jovens têm um papel crucial

A Lisbon Talk sobre Sustentabilidade e Geopolítica dos Oceanos decorreu no Oceanário de Lisboa na manhã de 26 de setembro. Num debate muito diversificado e animado, uma das principais questões abordadas foi o papel dos jovens na mudança de paradigma económico e ambiental.

Os oceanos são fundamentais em várias áreas: para a sustentabilidade ambiental (são o maior ecossistema do planeta), para a luta contra as alterações climáticas (absorvem CO2), para a globalização e o comércio (90% do comércio internacional é feito por via marítima), para a produção de energia, ou para a segurança e defesa (2/3 das fronteiras europeias são marítimas). Ao nível internacional, os exemplos do Mar do Sul da China, do Mar Negro, do Mediterrâneo, do Ártico, entre outros, demonstram o interesse geopolítico e estratégico dos oceanos.

A importância dos oceanos na sustentabilidade e na geopolítica tem aumentado no palco internacional. Se há pouco mais de uma década havia um grande desconhecimento, atualmente multiplicam-se as conferências sobre o tema, de vários ângulos e perspetivas. Os avanços ao nível político são evidentes, incluindo compromissos globais sobre a conservação e defesa dos oceanos, bem como o direito internacional (p.ex. com a Convenção global sobre pesca ilegal, não-reportada e não-regulada). Ao nível técnico, a vigilância por satélite veio trazer uma capacidade de monitorização destes compromissos, anteriormente inexistente. Temos agora os instrumentos para, num futuro próximo, poder identificar, responsabilizar e trazer a tribunal aqueles que não respeitam o ambiente.

A geografia sempre influenciou as estratégias e políticas, como se comprova pelas políticas marítimas de países como o Reino Unido ou a Holanda. Nos últimos anos, porém, a preservação das florestas, o combate às alterações climáticas e a gestão dos oceanos tornaram-se questões políticas ao mais alto nível. A sucessão de fenómenos meteorológicos extremos, o aquecimento global e as alterações climáticas em geral vieram alertar para o papel dos oceanos no ambiente e na economia, uma vez que a poluição, a epidemia de plástico, o desaparecimento dos corais e outros fenómenos estão a destruir não apenas a biodiversidade, mas têm também impactos nas pescas, na economia marítima e nas perspetivas de desenvolvimento. As oportunidades da “economia azul” são cada vez mais valorizadas.

A cooperação internacional será crucial, quer para salvar o que resta, quer para aproveitar essas oportunidades. Foi referido que é preciso ganhar tempo, mas que a solução de fundo passará necessariamente por uma mudança do paradigma económico. É preciso dissociar o crescimento económico da degradação ambiental, pois até agora um tem implicado necessariamente o outro. E é preciso, igualmente, investir em soluções empresariais assentes na natureza e no ambiente. Existem muitos projetos a serem implementados, com muita visibilidade, mas parece que os media ainda não estão sensibilizados para darem maior preponderância a estes assuntos.

Um fator importante será a partilha de conhecimento, existindo atualmente grande desigualdade nesta matéria, pois muitos países não têm as capacidades técnicas necessárias sobre os oceanos. A partilha real de conhecimento exige grande vontade política dos países. Isto está ligado, também, à governação pública, sobre a qual existe ainda uma visão muito verticalizada e antropocêntrica. Mas os oceanos têm impactos multissetoriais e requerem uma governação horizontal, que envolva vários atores e ministérios (ambiente, pescas, negócios estrangeiros, transportes) numa abordagem integrada da política marítima. Isto é um desafio não apenas no plano nacional/interno, mas também internacional, em que muitas vezes as várias instituições e atores trabalham de forma isolada.

Portugal foi também abordado no debate, na medida em que o mar faz parte da identidade portuguesa, desde logo por razões geográficas: somos o 110º país do mundo em termos de dimensão terrestre, mas estamos entre os 15 maiores países se tivermos em conta a dimensão marítima. Portugal não tem uma economia marítima muito estruturada, mas tem grande diversidade biológica e de ecossistemas – e o capital da natureza é essencial para a economia azul. Portugal organizará a conferência mundial sobre os oceanos em 2020.

A relação dos humanos com a natureza sofrerá necessariamente alterações profundas neste século. Só agora começamos a perceber que a natureza não é grátis e que é do nosso interesse preservá-la. Somos ainda marcados pela arrogância de tratar a natureza como uma "coisa" nos nossos sistemas legais, e não como um valor. Todos temos um papel essencial na mudança, desde a geração que está hoje em lugares de decisão até às gerações mais jovens.

A informação conduz à sensibilização, que leva à consciencialização, que suscita a mobilização e a ação: é um longo caminho! Mas é possível influenciar e mudar comportamentos - e o impacto é sempre maior quando nos envolvemos diretamente nas coisas e temos uma perspetiva prática da realidade. Os jovens podem desde logo agir de 3 formas imediatas: “vote, buy, post” (participar na democracia, ser consciente sobre as opções de consumo e partilhar as suas opiniões e experiências).

 

 

A Lisbon Talk "Sustainability and Geopolicy of the Oceans" foi organizada pelo Clube de Lisboa e a Fundação Oceano Azul, com o apoio do IMVF e da Câmara Municipal de Lisboa.

Os oradores foram Paul Rose, líder de expedições da National Geographic "Pristine Seas" e de Tiago Pitta e Cunha, presidente da comissão executiva da Fundação Oceano Azul, num debate moderado por Raquel Vaz Pinto, investigadora do IPRI da Universidade Nova de Lisboa e membro do Conselho Diretivo do Clube de Lisboa.